sexta-feira, 9 de março de 2012

"Dez Razões Para Amar"

Capítulo Dois
 
- Lua Blanco apresentando–se para o trabalho – anunciei enquanto entrava no escritório do Postscript.
“Apresentando–se para o trabalho? Bem, pelo menos demorei apenas dois segundos para revelar o quanto era babaca.”
Mas Micael nem parecia estar me ouvindo. Estava curvado diante do computador, superenvolvido.
- Ah... ahá – murmurou distraidamente.
Eu me sentei. Dessa vez estava vestindo uma minissaia o que era super raro para mim (Mel havia me emprestado), um legging preto, e uns sapatos pretos lindos (que destruíam os meus pés). Eu havia colocado o meu suéter da sorte, uma coisa verde, felpuda que Arthur me dera no Natal, dois anos atrás. Bem diferente de ontem.
Meu cabelo, estava solto, escovado e brilhante. A maquiagem era suficiente para ficar naturalmente bonita, mas sem exageros. Mel e Sophia tinham me ajudado a fazê-la.
Fiquei olhando para as costas de Micael enquanto ele digitava no computador. Olhando.
E olhando.
Depois de cinco minutos comecei a me inquietar, mas finalmente ele se virou.
- Desculpe por isso – falou ele, apontando para o computador atrás dele. - Eu estava no meio de um texto bem complexo.
- Ah, eu entendo... – assegurei a ele. - Eu sei o quanto é difícil parar quando a gente está no meio de uma idéia.
Ele concordou com a cabeça.
- Neil costumava desaparecer quando eu não lhe dava atenção imediatamente – suspirou ele. - Certamente você imagina que um aluno do último ano é maduro o suficiente para respeitar alguém que está concentrado. Não foi nenhuma perda o ver sair.
Então ele queria dizer que eu era madura, uma vez que não me queixei sobre ser ignorada e ter ficado esperando. Isso era bom! A última coisa que eu queria era que ele soubesse como eu era impaciente. Era algo que Arthur odiava em mim, ele tinha toda a paciência do mundo.
Fiquei surpresa em ouvir Micael falar mal do Neil. Todos os achavam super legal e estavam desapontados com a sua saída da escola.
- Vou limpar isso aqui pra você – falou Micael, levantando – se e guardando uma pilha de papéis em uma caixa.
“Os ombros dele poderiam ser mais largos?”, eu me perguntei, fitando novamente as costas de Frank. Ele era tão maravilhoso.
Ele agarrou um pedaço de papel e deu uma olhada.
- É tão estúpido – disse ele. - Eu mal consigo acreditar que Serson pensa nisso como uma boa matéria – completou ele, me passando o papel.
Era o artigo de Sophia sobre os presentes que as garotas gostariam de ganhar no dia dos namorados, que seria em duas semanas. De um modo geral, a idéia me soava boba também. Mas eu não diria que era estúpida. Só um pouco tola. Quase como uma DPA impressa ou algo parecido.
- Acho que é um pouco patético – concordei, devolvendo o artigo. - Quer dizer, o assunto – acrescentei rapidamente, - Não a redação de Sophia, que é boa, apesar de faltar um pouco de edição – arrematei.
Eu não podia acreditar que tinha acabado de destruir minha própria amiga na presença de Micael! Ele tinha muita influencia com o Sr. Serson. E se ele pensasse que Linda deveria sair do jornal?
- Essa é a marca de uma verdadeira profissional – disse Micael, jogando o papel de volta na caixa. - Eu tenho notado que você e Sophia são muito amigas, então fico impressionada que você seja profissional o suficiente para avaliar o trabalho objetivamente – ele sorriu para mim. - No entanto eu não diria que a redação dela é realmente boa. É razoável. Mas não chega nem aos pés da sua.
Senti o meu corpo brilhar com o elogio. Micael não gostava de coisas fúteis, era só isso. Fazia sentido que não aprovasse nada do que Sophia escrevia.
- Eu falei para o Doug que ele não deveria dar muito destaque ao Dia dos Namorados. – disse Micael.
Eu tinha que me lembrar que Doug significa Sr. Serson, Micael continuou:
- Mas ele não me deu atenção, e insistiu que as pessoas amam isso. Os jornais não deveriam trazer coisas sentimentais assim. È tão piegas e estúpido.
- Eu entendo – falei. - Eu fico doida quando trabalho um monte em um artigo sério, como aquele que fiz sobre a necessidade de alunos voluntários no hospital...
- Que a propósito, foi um excelente artigo – interrompeu Micael.
Meus batimentos cardíacos dispararam. Definitivamente, ele me respeitava.
- Obrigada – retruquei. - Bem, aquela matéria acabou sendo publicada na mesma edição em que saiu a critica sobre a festa de volta ás aulas. E foi sobre a festa que todo mundo leu e discutiu.
Micael sorriu para mim, como se entendesse o que eu estava falando.
- Acostume-se com isso. A edição do dia dos namorados vai desaparecer mais rápido do que qualquer outra. É a mentalidade aqui.
"Uau". Ele até usava palavras como "mentalidade" - palavras que faziam meus amigos debocharem de mim toda vez que eu as pronunciava. Palavras de gente velha, como eles diziam.
- É tão engraçado ver todos ficarem excitados só por que está chegando o dia dos namorados - comecei a divagar, apoiando em minha cadeira. - É um feriado tão ridículo. É como uma competição livre de beijos e amassos.
- Concordo plenamente! – exclamou Micael. - Eu achei que era o único a não comprar essa idéia estúpida.
“Eu também”, pensei me contraindo de felicidade.
Nós éramos feitos um para o outro!
- Ei, e se fizéssemos um artigo anti-Dia dos Namorados para essa edição? – sugeri.
Micael balançou a cabeça:
- No que você está pensando?
- Bem, a maioria dos artigos dessa edição será completamente boba e sentimental, certo?
- Com certeza – respondeu.
- Então, nós podemos fazer uma matéria objetiva sobre o quanto tudo isso é idiota. Sobre o modo como as pessoas ficam ansiosas por causa dessa data, que na verdade não significa nada. Como aconteceu no ano passado: três casais desmancharam por que as pessoas se irritaram com os presentes. Uma garota perdeu a paciência porque o namorado não comprou um daqueles sacos de bombons da escola para ela. Você pode acreditar nisso? Um saco de bombons que você encomenda na cantina da escola e eles entregam na frente de todo mundo no Dia dos Namorados. Grande coisa! É tão ridículo! As expectativas, o sofrimento, as obrigações…
- Adorei isso! – respondeu Micael. -Vamos analisar o feriado de um modo totalmente não sentimental para mostrar como todos se comportam de maneira idiota. Lua, você é brilhante!
“Brilhante. Eu adorei isso…”
- Um tipo de estudo sociológico e psicológico sobre a reação humana – disse empolgado, com seus incríveis olhos castanhos brilhando. - Será o artigo do dia dos namorados para o homem que pensa.
“Você que é brilhante”, pensei. Micael era a única pessoa que eu conhecia que podia falar daquele jeito.
- Isso é demais – ele agarrou um bloco amarelo que estava sobre a mesa e começou a fazer anotações. - Você precisa trabalhar nessa matéria. Eu não confio em nenhum dos nossos outros redatores para fazer isso. Quer dizer, você e eu somos os únicos que podemos fazer um artigo desses. Mas quando todos o lerem… nós iremos redefinir a opinião pública.
Um sentimento de orgulho tomou conta de mim. “Redefinir a opinião publica.” Isso era demais! Até mesmo Arthur veria que DPAs são vulgares se nós explicássemos de uma forma que fizesse as pessoas pensarem.
- Vamos transformar uma seção toda do jornal em uma página anti–Dia dos Namorados. Nós levaremos esse feriado tão á sério que as pessoas verão o quanto é absurdo levá–lo a sério.
- Perfeito! – exclamei. - Eu posso entrevistar os alunos sobre as suas opiniões e expectativas, mostrando tudo de uma perspectiva diferente da que Sophia usou em seu artigo. Tenho certeza de que ela não irá se importar. Além disso, é incrível nós podermos mostrar os dois lados no mesmo jornal. É assim que tem que ser.
Micael concordou com a cabeça.
- Ei, enquanto você estiver trabalhando no assunto sobre esse ângulo, eu posso escrever algo sobre a história do feriado. Ninguém nunca fala sobre isso – disse, largando a caneta e o bloco sobre a mesa. - Graças a Deus, Neil não está mais aqui! Trabalhar com você vai ser… – sua voz sumiu quando enquanto direcionou seu olhar para baixo por um segundo, depois voltou–se para mim. - Muito, muito bom – terminou ele.
Tum–tum–tum. Tum–tum–tum.
De repente, notei que estava fitando os lábios dele, imaginado como seria beijá–lo.
Ele me passou um bloco, então virou a cadeira e debruçou–se sobre a mesa, escrevendo como um maluco. Eu estava tão inspirada! Comecei a escrever também. Minhas idéias vinham rapidamente: quem eu deveria entrevistar, que perguntas eu faria, quem eram os casais da escola, quais eram as estratégias das lojas para balas, jóias e bichinhos de pelúcia.
- Uau – falou ele. - Já está ficando bem tarde. Preciso ir para casa.
- Ah, eu também. – repliquei, olhando para o meu relógio, ainda que pudesse ficar naquela sala por muitas e muitas horas.
- Então, eu acho que depois nós podemos conversar como será dividida a página de editoriais, né? – falei, enquanto fechava a mochila. - Quer dizer no geral, não apenas na edição do Dia dos Namorados. E provavelmente nós vamos precisar ter alguns encontros além das reuniões com toda a equipe do jornal, certo?
“Será que eu estava soando tão pateticamente desesperada para ficar mais tempo com esse cara quanto eu imaginava?”
- Sim, com certeza – concordou Micael. - Sexta á noite?
Eu pisquei os olhos, sem acreditar no que estava acontecendo. “Ele tinha me convidado para sair?”.
- Humm, claro – falei.
- Talvez pudéssemos jantar juntos? – continuou ele.
“Um jantar na sexta feira a noite era definitivamente um encontro”, eu reafirmei para mim.
- Ok.
- Legal – falou ele. - Vejo você amanha a noite, então. Daí nós podemos decidir a estrutura do editorial do Dia dos Namorados.
Concordei com a cabeça.
- Até amanhã – me despedi. Peguei minha mochila e fui embora, resistindo ao impulso de sair saltitando pelo corredor da escola. Isso não seria algo maduro.

***

- Olá, todos, cheguei! – gritei assim que entrei na minha casa. Larguei a mochila no hall de entrada e corri para a cozinha.
Parei de repente. Arthur estava sentado diante da longa mesa de carvalho da cozinha junto com meu irmãozinho, Pedro. Meu pai estava perto do fogão, cozinhando algo com um cheiro delicioso.
- Oi, querida – falou papai, esticando a cabeça sobre o ombro para me olhar. - Sua mãe e Estrela foram ao mercado comprar refrigerante. Ah, e Arthur está aqui.
- Mesmo? – brinquei.
“Arthur deveria estar obcecado sobre a roupa que deveria vestir em seu encontro com Pérola”, pensei.
- E aí? – perguntei a ele. - Veio comer a carne cozida maravilhosa do meu pai? – brinquei. Arthur já havia almoçado e jantado tantas vezes lá em casa desde que nos conhecemos que meus pais brincavam que ele estava me usando só para comer de graça.
Tudo o que eu queria fazer era voar para o meu quarto e ficar pensando sobre a noite seguinte. Eu e Micael em um encontro. Num jantar. Sentados, um diante do outro. Eu queria relembrar todas as coisas maravilhosas que ele havia me dito em nossa reunião na escola. Mas era impossível sonhar com Arthur ali.
- Ele está aqui para me ver – anunciou Pedro, todo orgulhoso. - Não é, Arthur?
- Claro que sim – Arthur piscou para mim. - Mas agora que sua irmã chegou, eu vou ficar um pouco com ela. Assim ela não fica enciumada.
- Então, onde você tava? – perguntou Arthur, enquanto saíamos da cozinha e nos esparramávamos no sofá macio da sala. - Eu cheguei faz uma hora, certo de que te encontraria. Pedro e eu fomos até a quinta fase daquele jogo novo do Playstation.
- Tava fazendo umas coisas para o jornal – disse. - Por que você veio?
Arthur sorriu, levantou – se e agarrou sua mochila.
- Feche os olhos – ordenou ele, voltando a sentar.
- Mas para quê? – perguntei.
- Apenas feche, bobinha.
Fechei os olhos.
- Tá bom – ele colocou algo que parecia um livro em minhas mãos. -Agora pode abrir.
Nas minhas mãos estava uma coleção dos ensaios que Anna Quindle´s escrevia para o jornal The New York Times. Arthur sabia que eu era fã dela.
- Obrigada – falei, meu coração espremendo dentro do peito. Isso tinha sido tão incrivelmente carinhoso da parte dele! - Adorei! Mas qual o motivo?
Arthur revirou os olhos.
- Leia a dedicatória, palerma.
Eu abri o livro; uma mensagem com a letra confusa do Arthur estava escrita na primeira página.

Para minha melhor amiga.
Parabéns pela nova conquista no Postscript. Estou muito orgulhoso de você, e tenho certeza que um dia estará autografando o seu próprio livro de ensaios. Serei sempre o seu maior fã, não importa o que esteja fazendo.
Com amor, Arthur.

“Não importa o que esteja fazendo.” Coloquei o livro no colo e olhei para Arthur, que estava sorrindo timidamente.
- Isso é tão lindo – falei, lançando os meus braços ao redor dele. - Muito obrigada!
Ele se afastou após me dar um rápido abraço.
- Não precisa agradecer. E parabéns novamente, garota.
- Ei, e como as coisas estão rolando com a Pérola? – perguntei.
- Tá ótimo. Ela parece estar realmente ansiosa com o nosso encontro – disse Arthur. Não entendia como ele não percebia o quanto as garotas gostavam dele.
- E você, também está ansioso? – perguntei, curiosa.
Seu rosto ficou um pouco vermelho.
- Eu acho...eu acho que ela é bastante bonita. Hoje ela estava vestindo uma calça jeans bem justa e uma camiseta rosa curta…
- Legal. Bem legal… mesmo! – disse cheia de empolgação, interrompendo ele. As roupas de Pérola Faria não me interessavam. - E, eu, humm, na verdade também tenho um encontro neste fim de semana.
- Ah, é? – disse Arthur, os olhos arregalando de surpresa. - Quem é o azarado?
- Micael Borges – respondi, passando os dedos pelas franjas da manta que ficava sobre o braço do sofá. - Ele me convidou para sair – dei um sorriso. - Finalmente.
Arthur franziu a sobrancelha.
- Finalmente? Eu pensei que você já tinha desistido dele. Agora que você já o conheceu melhor.
- O que você quer dizer com isso? – disse irritada. Eu não esperava que Arthur fosse festejar ou algo parecido, mas queria que pelo menos ficasse feliz por mim. Ele sabia o quanto eu gostava de Micael, e quanto tempo eu havia esperado para que isso acontecesse.
Arthur apenas deu de ombros.
- Eu imaginei que quando o conhecesse melhor acabasse mudando de idéia. Você devia vê–lo nos nosso encontros do comitê do Livro do ano. Ele age como se fosse o rei de tudo.
Cruzei os braços.
- Eu não sei do que você está falando. Ele é sempre agradável comigo.
- Ele nem sabia quem você era até a alguns dias atrás – Arthur falou de modo grosseiro.
- Bem, agora ele me conhece – retruquei. - No nosso encontro de hoje, nós concordamos em tudo. Como com a minha sugestão de um artigo contra o dia dos namorados. Ele quer fazer uma seção inteira sobre isso.
- Agora sim é impressionante – murmurou Arthur. - Você conseguiu conhecer alguém que odeia flores e corações tanto quanto você?
- Exatamente – disse. - Então, você poderia tentar ficar um pouco feliz por mim?
Arthur abriu um sorriso descaradamente falso.
- Aqui está. Fiquei feliz.
Dei um chute de leve no pé dele.
- Ah, vai... Finalmente eu vou sair com o cara pelo qual eu fiquei interessada durante o ano todo. Fico triste que você não goste dele, mas eu gosto. – meu coração começou a disparar com essas palavras, eu iria sair com Micael Borges! Mal podia esperar pra contar isso pra Sophia e pra Mel. Sorri para Arthur. - Ei, de qualquer modo você não tem tempo para se estressar em relação a isso. Você precisa começar a planejar o seu encontro com Pérola.
- É – ele esticou as pernas. - Eu queria achar um lugar realmente…
- Lua! – a voz do meu pai ressoou da cozinha. - O jantar está pronto.
Olhei para Arthur.
- Você vai ficar?
Ele balançou a cabeça negativamente.
- Eu tenho que voltar para casa.
Agarrei a sua mão e a apertei.
- Obrigada novamente pelo livro. Eu amei.
- Fico feliz. Fala pro seu pai que eu me despedi dele. E diga ao Pedro que eu voltarei em breve para uma revanche.
- Tá bem. E se você precisar de ajuda para planejar o seu encontro, ou qualquer coisa, eu estou disponível.
- Você, a anti–romântica? Seria melhor pedir ajuda do Bill e do Steve do time de basquete – ele sorriu. - Não, eu me viro Lua. Mas obrigado mesmo assim.
- Ok. – falei, acompanhando–o até a porta e observando–o sair correndo pela calçada. Fique me perguntando: onde ele levaria Pérola? Para um restaurante elegante? Pro cinema? Pro shopping?
Então um pensamento mais interessante passou pela minha cabeça. Onde Micael me levaria?

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By : Maria Fernanda e Vithória

Recado ....

Nós (Maria Fernanda e Vithória) vamos ficar alguns dias ausente do blog , por causa da escola ..... assim que as provas acabarem voltamos ao normal ... espero que entendem :D