quinta-feira, 8 de março de 2012

"Dez Razões Para Amar"


Fevereiro

“Por que eu tinha que escolher justamente hoje para ser um dia monótono?”, resmungava silenciosamente, enquanto atravessava o corredor em direção ao escritório do Postscript. Dei uma olhada no meu jeans desbotado e no meu agasalho dois números maior. Se ao menos eu morasse do lado da escola como minha amiga Sophia Abrahão, poderia correr para casa e trocar de roupa.
Não podia imaginar que o Sr. Serson anunciaria uma reunião de emergência com a equipe do jornal justamente hoje.
Eu tinha passado os últimos quatro meses tentando atrair a atenção de Micael. Aparecer vestida desse jeito não ajudaria em nada.
Uma olhada rápida pela janela do escritório revela que Micael ainda não havia chegado. Ufa.
Abri a porta e me dirigi para o fundo da sala, despencando na cadeira ao lado de Sophia.
Ela me examinou dos pés a cabeça, então levantou suas sobrancelhas.
- Alguém não esperava encontrar certa pessoa hoje, não é mesmo? – cantarolou Sophia, piscando seus olhos pretos. - Por acaso achou que hoje seria um dia monótono?
- É. – respondi, me afundando na cadeira. - Não tive muita sorte na minha escolha. É claro que tudo daria certo se a reunião fosse amanhã como estava marcado.
Sophia criara os dias monótonos no ano passado. Era o seguinte: nos dias em que você não encontraria o cara dos seus sonhos, poderia se vestir do jeito que quisesse, sem maiores preocupações. Roupas confortáveis, como um agasalho de moletom ou roupas largas. Cabelos presos num rabo de cavalo comum. Uma maquiagem rápida.
Então, no dia seguinte, quando estivesse certa de que encontraria o cara (ou quando armasse um jeito de encontrá-lo), você vestiria uma roupa que lhe fizesse sentir realmente linda. Faria um penteado especial, abusaria do brilho labial, do rímel e do perfume caro de sua mãe.
O contraste entre os dois dias ajudaria você a ficar ainda mais atraente.
Não que alguma vez eu tivesse me sentido atraente, visto que eu não era exatamente uma garota glamurosa. Mas o dia seguinte ao dia monótono sempre ajudava.
Sophia balançou a sua cabeça.
- Isso vai ser um sofrimento – falou ela. - Você–sabe–quem pode chegar a qualquer momento.
- Você pensou que eu já tinha apreendido depois do desastre do dia monótono do ano passado, não é?
Sophia soltou uma gargalhada.
- O quê? O dia em que anunciaram de surpresa que os alunos do primeiro ano da escola Emerson iria tirar fotos, exatamente no dia mais monótono de toda a nossa vida?
- Eu estou totalmente horrível? – perguntei, checando se nenhuma mecha rebelde de cabelo havia se soltado do meu rabo de cavalo.
- Você está adorável como sempre – ela me assegurou.
“É claro.”, pensei. “Ela é minha amiga. É claro que diria isso.”
Eu havia contado para Sophia e para nossa outra amiga, Mel sobre o meu interesse por Micael. Isso apenas algumas semanas depois que Arthur confessou seus sentimentos para mim. É claro que não comentei nada sobre Arthur.
Sophia, Mel e eu éramos intimas, mas Arthur era meu melhor amigo. E apesar delas serem meio amigas de Arthur, eles não chegavam a sair juntos ou coisa parecida.
Ambas ficaram surpresas quando souberam da minha paixão. Elas achavam Micael muito bonito, mas tinham a mesma impressão de Arthur: ele se sentia superior a todos. Mesmo assim, estavam torcendo por mim.
Mas eu continuava na mesma situação de quatro meses atrás. Ainda não havia conseguido fazer Micael perceber que eu estava interessada por ele.
E, também, ele nunca havia me dado um simples sinal de que poderia estar interessado por mim.
Mas manter a paixão escondida não estava sendo difícil. Eu havia transformado toda minha energia acumulada em dedicação absoluta ao jornal, o que acabou rendendo bons resultados: uma promoção para editora assistente em novembro.
E isso era o máximo, por que Micael havia sido promovido para um dos cargos de editor em dezembro. Se eu tivesse continuado como assistente editorial minha chance com ele seria tão pequena que eu poderia esquecer tudo.
Concluindo, passei todos esses meses olhando Micael apenas quando tinha certeza de que ele não estava percebendo. Evitava parecer uma apaixonada idiota quando ele vinha falar de idéias para novos artigos. Eu nunca suspirei, desmaiei, gemi ou bati palmas.
Afinal de contas eu era uma profissional. E se existia uma coisa sobre Micael Borges que todos concordavam era que acima de tudo ele era um super profissional.
Pelo menos eu havia conversado um pouco com ele sobre jornalismo. E não o achei um cara metido. Na verdade, eu o achei incrível. Ele trabalhava tão bem que mesmo os alunos do terceiro ano não se incomodavam de seguir instruções de um cara mais novo.
- Quais serão as noticias do Sr. Serson? – perguntei para Sophia.
- Tenho certeza que não será nada importante. – ela deu de ombros.
Sophia trabalhava no jornal apenas para que seus pais ficassem satisfeitos por ela estar participando de atividades extracurriculares. Era assistente das colunas do jornal e escrevia apenas futilidades.
Mas tudo bem, pois escrever não era a razão da vida dela como era para mim.
- Então, já te contei a última? – perguntou Sophia, curvando–se para tirar uma lixa de unha da bolsa. - Chay me falou que Carla ligou para ele ontem à noite. Ela o quer de volta. Dá pra acreditar?
Eu sorri. A vida amorosa de Sophia era uma novela emocionante, ao contrario da minha, totalmente inexistente.
- Bem, pelo menos ele te contou que ela ligou – apontei. - A maioria dos namorados não iria mencionar um telefonema da ex-namorada.
- É, acho que sim – falou enquanto começava a lixar suas unhas. - Mas eu que não encontre aquela garota... – ameaçou.
E eu fingi ouvir o monólogo de Sophia sobre o fato de Chay ter namorado Carla antes dela.
A porta do escritório se abriu. Lá estava ele. “Que lindo.”, pensei, lançando olhares para Micael enquanto ele se sentava em uma cadeira mais a frente. O tum–tum–tum do meu coração se alterou do normal para o descompensado e eu tinha certeza de que todos podiam ouvir o barulho.
Observei seus cabelos castanhos. Ele abriu a mochila e retirou um punhado de folhas de papel, passando o dedo por elas como se procurasse por algo.
Este era o Micael. Sempre trabalhando, sempre sério em relação aos seus escritos. Ele não estava fofocando sobre a ex de alguém. Ele não estava vestindo um moletom ridículo. Ele estava sempre seguro de si.
- Olá, todos – o Sr. Serson entrou e parou em frente à mesa em que Micael estava sentado. - Os artigos devem ser entregues aos editores de cada sessão amanhã, como vocês já sabem. Mas não é esse o motivo de eu ter convocado essa reunião de ultima hora.
Sophia inclinou–se para o meu lado.
- Para um professor, até que ele é bem bonitinho... – sussurrou ela. - Nós temos sorte que ele seja o nosso coordenador.
Afastei–a com meu cotovelo e ela soltou uma risadinha.
- Neil Daldin está se mudando – continuou o Sr. Serson – portanto, há uma vaga para o cargo de editor.
“Por favor, não o deixe anunciar uma garota para o cargo”, eu rezava. “Era só o que me faltava. Alguma menina pegando a vaga e trabalhando ao lado de Micael. Bem que podia ser o Jerry ou o Marco ou...”
“Eu.”
Eu sabia que o Sr. Serson gostava do meu trabalho, mas por causa da minha paixão por Micael eu ficava super quieta. Tinha vergonha de sugerir pautas, com medo de que ele achasse minhas idéias estúpidas. Eu sabia que isso era errado, mas não conseguia evitar que acontecesse. De qualquer modo eu falava metade daquilo que eu pensava, o que já era melhor do que nada não é?
- Micael e eu escolhemos uma pessoa que trabalha bastante, escreve artigos excelentes e tem mostrado um grande comprometimento com o jornal. Se você quiser, o cargo é seu, Lua.
O Sr. Serson estava me fitando. Micael também me olhava.
Levantei o meu queixo, que havia acabado de cair. Tudo o que eu conseguia fazer era balançar a cabeça, uma vez que estava completamente sem palavras. Eu! Editora junto de Micael Borges, o cara de todos os meus sonhos.
Será que isso estava mesmo acontecendo?
Dei uma olhada para Micael. Ele sorria para mim, aqueles incríveis olhos castanhos quentes e receptivos. Ele nunca havia me dirigido um sorriso como aquele antes!
De repente, tomei consciência total do rabo de cavalo desgrenhado que estava usando e de que não havia um pingo de maquiagem em meu rosto. “Lembre–se sempre disso”, pensei. “Dias monótonos, nunca mais! Nunca!”
Sophia apertou o meu braço.
- Parabéns – falou baixinho. Eu sabia que ela não sonhava com uma carreira jornalística como eu.
Retribui o sorriso de Micael, então recompus minha voz e virei meu olhar para o Sr. Serson.
- Eu quero! – anunciei.
“Meu Deus, Lua, você poderia falar como se tivesse mais do que apenas dez anos de idade?”
- Ótimo – disse o professor. Micael aprovou com a cabeça, então virou o corpo para olhar o Sr. Serson novamente. - Certo pessoal, era tudo o que eu precisava contar para vocês, mas, já que estamos aqui, vamos nos dividir em seções e conversar sobre a edição da semana que vem.
- Ele é seu! – sussurrou Sophia, puxando o meu rabo de cavalo. Toda a equipe veio me cumprimentar e todos disseram que não era nenhuma surpresa terem me escolhido. Uau!
Era tudo de bom. Minha chance de ter o emprego com o qual eu havia sonhado por um ano e meio. Além disso, minha chance de fazer Micael me notar. Afinal, ser uma das editoras significava que tínhamos o mesmo cargo, éramos colegas de trabalho. Não estava maus tão distante dele!
Eu mal percebi Sophia levantando de sua cadeira para se juntar ao grupo dela. Mas fiquei bem ciente de que Micael estava caminhando em minha direção, sentando–se ao meu lado e prestes a dizer algo para mim.
Tum–tum–tum. Tum–tum–tum.
- Parabéns – Micael estendeu sua mão, e eu coloquei a minha sobre a dele. Esse pequeno contato fez um formigamento subir pela minha coluna. - Você foi a única pessoa que cogitamos para o cargo – sussurrou ele.
“Diga algo normal. Não mostre a ele o quanto você está nervosa. Não...”
- Ah eu também – falei sem pensar.
“Aquilo realmente saiu da minha boca?”
- Quer dizer, eu queria muito essa oportunidade – acrescentei o mais rápido possível. - Eu adoro trabalhar no jornal e eu tenho tantas idéias que mal posso esperar para me dedicar mais a isso e...
Micael soltou uma gargalhada.
- É uma gracinha ver você ansiosa desse jeito.
Ele me chamou de gracinha!
- Já que não temos muito tempo agora – falou - que tal nos encontrarmos aqui amanhã depois das aulas para repassarmos tudo? Eu poderia ouvir suas idéias com muito mais calma.
- Só nós dois? – perguntei, tentando disfarçar o tremor na minha voz.
Micael fez que sim com a cabeça.
- Estou louco para trabalhar com você. Seus artigos têm sido muito bons ultimamente – contou.
“Louco para começar a trabalhar comigo. Meus artigos...!”
- Obrigada. Vindo de você é um grande elogio – sorri e ele me olhou de modo esquisito, como se esperasse que eu dissesse alguma coisa.
Ah!
- Tá certo, então, amanhã. Hmmm, aqui depois da escola. Combinado!
“Eu posso lidar com isso”, pensei. Ao menos eu pensava que podia. Eu mal conseguia levar uma simples conversa com o cara!
- Legal – falou, se levantando. – Agora preciso mostrar umas coisas para o Doug. Então... te vejo amanhã.
Doug? Que máximo! Micael tratava o Sr. Serson pelo primeiro nome! Ele era tão maduro!
- É, com certeza. Eu também tenho que... humm... fechar uns detalhes sobre o artigo que eu estou fazendo com o Jerry – sorri, enquanto Micael saia, imaginando se a sala inteira poderia ouvir o meu coração martelando.
“Eu sou uma editora”, apertei meus lábios, apreciando o som daquelas palavras. “E amanhã estarei sozinha em uma sala com Micael Borges”.

***

Onde estava Arthur? Olhei para o corredor pela décima quinta vez nos últimos trinta minutos da minha aula de história. Nenhum sinal dele.
Puxei a mochila das costas da cadeira e peguei meu caderno vermelho. Eu havia escolhido vermelho para essa aula, por que vermelho me lembrava guerra, que era praticamente tudo que aprendíamos em história.
Arthur era o único que sabia do meu hábito estúpido de criar um código de cores para os meus cadernos, e já tinha desistido de implicar com isso há alguns anos.
Recostada em minha cadeira respirei profundamente e pensei como apresentaria as novidades. Ele ficaria emocionado ao saber do meu novo cargo. Mas quanto a eu trabalhar com Micael... isso poderia ficar um pouco chato.
Havia sido duro retornar nossa amizade desde que ele contara os sentimentos que tinha por mim. Arthur havia me evitado duas semanas, e eu também não forcei um encontro por que ele precisava de um tempo longe de mim. Quando ele finalmente apareceu na minha porta com dois ingressos para um filme de horror, eu soube que as coisas ficariam bem.
E ficaram. Ele nunca havia me perguntado sobre Micael, e como nunca havia nada novo para contar, eu não trazia esse assunto a tona. Ele agia normalmente ao meu lado, do mesmo jeito de sempre.
Depois de um mês parecia que aquela conversa nem tinha acontecido. Algumas vezes pensei sobre ela, e imagino que ele também tenha pensado. Mas nunca voltamos a falar sobre isso. Tivemos alguns momentos de constrangimento, como quando Sophia ou Mel pronunciavam o nome de Micael na presença de Arthur. Mas ele nunca disse nada. Eu acho que ele ficaria feliz por mim, se eu e Micael ficássemos juntos. Talvez com ciúmes, ou até um pouco triste, mas, apesar disso, feliz. Ele era meu melhor amigo.
- Ei senhorita Blanco! Acorde!
Levantei rapidamente a minha cabeça. Arthur estava caindo na cadeira ao meu lado. Ele parecia completamente agitado. Decidi que não deveria mencionar nada sobre o Postscript. Só por garantia.
- Eu encontrei com a Sophia e ela me contou que você pegou a vaga de editora – falou. - Isso é incrível!
Era por isso que ele parecia tão excitado? Por que ele havia ouvido a novidade e sabia o quanto isso era importante pra mim? Ainda que Sophia tivesse mencionado algo sobre Micael? Arthur era mesmo um grande amigo.
- Eu nem pude acreditar! – exclamei. - Você devia ter me visto. Eu mal conseguia falar. Eu, Lua Blanco, editora! E aí... – cortei o assunto no meio sem saber se devia mencionar o lance sobre Micael. Talvez Sophia não tivesse comentado nada sobre isso.
- E aí o que? – instigou Arthur.
Eu mordi meu lábio.
- E aí todo mundo falou coisas maravilhosas para mim. Sabe, tipo... como eu merecia o cargo e tudo mais.
- Você realmente merece – replicou ele. - E eu imagino que agora você irá trabalhar bem perto de Micael Borges.
Eu engoli em seco. Concordei com a cabeça, observando a expressão dele. Totalmente indiferente. Era claro que ele não estava me cumprimentando da mesma maneira que Sophia, mas também não parecia triste.
- Eu sei que isso deve ter te deixado feliz, Lua. – falou. - Então, pode sorrir. Está tudo bem. Mesmo.
Eu me inclinei para abraçá-lo.
- Por que vocês não se casam de uma vez? – brincou, Vanessa Peid que estava sentada atrás de nós.
Nós nos separamos e trocamos sorrisos.
- Eu tenho novidades também – disse Arthur. Ele tinha aquela expressão tímida em seu rosto, aquela que aparecia covinhas ao lado da sua boca e seus olhos ficavam quase fechados.
- Eu convidei Pérola Faria para sair – sussurrou ele. - E ela aceitou.
- Uau!. – exclamei, surpresa, Pérola era a dupla de Arthur na aula de química. Ele havia falado que ela era muito legal, mas nunca passaria pela minha cabeça que estava interessado. - Não acredito que não tenha me contado que gostava dela!
- Eu não queria falar nada sobre isso e estragar tudo – replicou ele. - Bom, não é nada demais. Só um encontro. Vamos ver como vai ser, você sabe.
- Lógico que é importante! – exclamei. - Quer dizer, você está, finalmente... você está, humm... – engasguei. Eu tinha certeza de que minhas bochechas estavam completamente vermelhas. Olhei para Arthur sem saber como continuar.
- Tudo bem – ele me falou, sorrindo. - Eu realmente to a fim dela. E acho que ela também gosta de mim. Quer dizer, eu espero.
- Eu acho que não posso agüentar nem mais um minuto do seu ego enorme – brinquei, tentando tornar a conversa mais leve. - Você precisa dar um tempo com isso.
Arthur riu.
Nosso professor entrou na sala, então passamos a prestar atenção no que ele começava a escrever no quadro negro.
Arthur estava realmente interessado em outra garota. Essa era a primeira vez em quase um ano que ele convidava alguém para sair. Reparei bem no seu rosto: refletia uma expressão de completa felicidade.
Isso era o máximo certo?
Arthur sairia com Pérola, eles se apaixonariam, e talvez, finalmente, Micael começasse a me notar e nos tornássemos um casal fabuloso. Tanto Arthur quanto eu ficaríamos felizes, e com certeza continuaríamos sendo os melhores amigos. Talvez, os dois casais até pudessem sair juntos.
“Pérola Faria?”, pensei.
Ela não parecia ser exatamente o tipo de Arthur – um tanto frívola e supervaidosa. Mas e daí? “Tenho certeza de que Arthur só gostaria de alguém legal. E estou feliz por ele estar seguindo adiante”, conclui.
Isso era muito bom, de fato. Eu queria que ele gostasse de alguma outra menina, não queria?
E agora que isso tinha acontecido não havia mais nada que me prendesse – ou melhor, que prendesse meu coração.

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By : Maria Fernanda e Vithória

Recado ....

Nós (Maria Fernanda e Vithória) vamos ficar alguns dias ausente do blog , por causa da escola ..... assim que as provas acabarem voltamos ao normal ... espero que entendem :D